Ela praticamente nasceu quebrada.
O nome disso é osteogênese imperfeita. O osso da Isabela não tem a parte que endurece — é como se fosse de vidro.
Não é queda que quebra. É espirro. É rir demais. É o irmão esbarrando na cadeira de rodas.
Foram trinta e uma fraturas e nove cirurgias em sete anos de vida.
E cada osso que quebra torto, solda torto — roubando um pedaço da cirurgia que ainda pode salvá-la.
O pai dela desistiu na quarta cirurgia.
Ele aguentou três. Na quarta, não apareceu no hospital. Nunca mais voltou.
Desde então, fui só eu nas outras vinte e oito fraturas.
Eu seguro a mão dela, encosto minha cabeça de leve no travesseiro e fico ali a noite inteira. É o máximo de abraço que a gente pode ter.
O irmão dela inventou o abraço sem encostar.
Ele tem três anos. Abre os bracinhos no ar, faz uma roda em volta da irmã e não encosta.
E sempre fala pra ela: quando a cirurgia acontecer, eu vou te dar o melhor abraço do mundo.
Com três anos, ele já entendeu que amar a Isabela é não chegar perto.
Existe uma haste que cresce junto com ela.
É uma haste de titânio que entra dentro do fêmur e vai esticando conforme a Isabela cresce. É ela que troca a cadeira de rodas por uma infância.
Eu sou diarista em três casas. Vendi minha aliança, vendi nossa moto, fiz vaquinha no bairro inteiro. Em oito meses, juntei doze mil reais. A cirurgia custa noventa e seis.
O SUS paga o remédio pra minha filha quebrar menos. A haste pra ela andar, não.
O médico foi claro: são quarenta e sete dias enquanto o osso ainda está reto o suficiente pra receber a haste.